Nós

RELATO DE PARTO

4 horas da manhã. Senti a primeira contração. 


Fazia apenas meia hora que tinha ido me deitar.

Não acredito! Meu trabalho de parto estava realmente começando e eu tinha me traído no plano de estar descansada para a sua chegada, por conta do Netflix!


8 em 8 minutos. Esse era o intervalo entre as contrações (muito parecidas com uma cólica menstrual) que me permitiram breves cochilos entre elas por 3 horas, momento em que perdi o tampão, os intervalos passaram a diminuir e a idéia de que ele estava chegando se tornava concreta.


Às 8h, o intervalo entre as contrações não me permitia mais cochilar. Aproveitei para arrumar os últimos detalhes da mala e, às 10h, fomos até a maternidade verificar a progressão do meu corpo durante aquelas últimas 6 horas.

Durante o caminho, lembro de ter comentado com o Tiago, após uma das contrações, que não conseguia entender aquela história de gritar de dor durante as contrações... Naquele momento, era impossível gritar, a vontade era oposta a isso: necessidade de calar! 


Chegamos na maternidade: 1cm.

Ok, eu não imaginava que estivesse em um estágio avançado do trabalho de parto, mas a esperança de ser uma daquelas super mulheres que chega a 7cm sem quase sentir dor sempre existe, né?! 

É, mas eu não era uma delas...


Obstetra avisado, doula avisada, fotógrafa avisada, voltamos para a casa!


Tiago voltou pra cama. 

Eu bem que tentei, mas, sem sucesso, fui curtir aquelas ~deliciosas fisgadas, mais intensas a cada vinda, enquanto cozinhava na companhia da Mel (fotógrafa)


Liga o fogão, refoga o alho, tempera a carne, desliga o fogo, pausa pra dor. Religa o fogo, coloca o arroz, pega a frigideira, desliga o fogo, pausa pra dor. 

Pede pra ligar pra doula, frita um ovo, pede pro marido apertar as costas.

Duas garfadas, um gole de água, arruma a comida no garfo e pausa pra dor: 

  • “Amooor, cadê você?!”
  • “To ligando pra doula que vc pediu!”
  • “Amooor, fica aqui comigo!”
  • “Eu to aqui com você”
  • “Mas fique mais aqui”



Chuveiro, bola, alongamentos...

Ele ligava pra doula e eu pedia para avisa-la para nem ir lá pra casa. Queria ir para a maternidade e achava que ela perderia a viagem indo até nós.

Até hoje eu não sei como eles conseguiram me fazer esperar em casa...


As mãos de fada da Flaviana chegaram na nossa casa e tudo se misturava: o medinho de esperar em casa, os pensamentos de o dia anterior ter sido o último sem ele, as dores e, sobretudo, a alegria! 


Sempre desejei um trabalho de parto com clima leve e divertido! 

Nem sequer por um segundo passou pela minha cabeça que alguma intercorrência, além da dor, pudesse acontecer!

Desde que engravidei, torcia para que meu trabalho de parto não iniciasse com a bolsa se rompendo (e, assim, me proteger do risco do terror psicológico: a contagem regressiva para se ter dilatação que existe em nosso país, em que a maioria das mulheres acreditam ter um raro problema aonde não têm dilatação após esperar nem 10 horas com bolsa rota), e estava acontecendo do jeitinho que eu havia planejado... ou quase, hahaha...


Me olhei no espelho e percebi que meus planos de estar maquiada e diva para a hora do parto eram utopia.

Meu cabelo já tinha virado uma maçaroca com tanto entra e sai de chuveiro.

E, durante as contrações, eu esfregava minha cara, apertava meus olhos, franzia todo o rosto de tal forma que até apareceu uma veia na minha testa, cuja existência eu desconhecia (e que deixou a região dolorida por alguns dias).


“Vinho!” Tínhamos comprado um vinho branco. Para tomar geladinho durante o trabalho de parto e me fazer relaxar e amenizar a dor. 

Quanta ingenuidade, hahahaa

Claro que ele não adiantou para essa finalidade, mas foi muito gostoso aquele momento de brinde no meio de todo o rito de chegada!


O relógio marcava quase 18h. O Tiago “precisava” passear com a Colbie e minha doula aproveitou a idéia para irmos todos juntos. Neste momento, minhas contrações vinham a cada 4 ou 5 minutos e muito fortes, tornando o passeio algo muito peculiar de ser observado!

“Que ideia de jerico” dizia eu entre gemidas e risadas, ao abraçar árvores durante contrações no meio da rua! 


Quando subimos, comecei a ter muita vontade de empurrar. Com medo, mas encorajada pela minha doula, deixei a vontade tomar conta e algum sangue começou a sair: sinal de colo trabalhando e hora de ir para a maternidade! 


Meu Deus, como aquele caminho demorou! Estava quase no limite da minha dor, não conseguia sequer sentar dentro do carro! Fui o caminho todo em quatro apoios, sem conseguir abrir os olhos direito. Era como se eu tivesse que escolher entre processar as informações visuais e a dor que eu estava sentindo. 


Ao chegarmos na maternidade e entrar na sala de triagem, meu mundo desabou: 4cm! 


Eu não estava preparada, nem física, nem psicologicamente para chegar naquele estágio de dor e ainda não ter chegado “nem na metade” do caminho! 

Comecei a chorar, não tinha forças para sair da sala de triagem! Qualquer tentativa de me mexer era acompanhada de uma nova contração ainda mais dolorida que a anterior!

Pedi desculpas por estar “empacando” a sala e a enfermeira, muito atenciosa, falou que não tinha ninguém na espera e que, dê maneira nenhuma, ela estava me pressionando. 


Neste momento, Dr Álvaro chegou e pediu para realizar um novo toque: “Não está 4, não! Tá 5... quase 6!”

Não foi exatamente um alívio, mas foi o suficiente para cessar meu choro e juntar forças para subir o lance de escadas que me separava do meu quarto na maternidade rapidamente, num ímpeto de valentia! 

Subido o lance, voltei para o chão, no meio do corredor da maternidade, em mais uma contração! ...e os gritos que achei que não teria forças para proclamar, ali estavam, a plenos pulmões! 


Quando cheguei no quarto, o chuveiro estava pronto me esperando, aonde entrei e permaneci perdendo a noção do tempo! 

Foi pouco mais de 1 hora de choro, gritos, dor, conexão e limite superado a cada segundo...

O barulho da água caindo, o cheiro do óleo essencial, minhas súplicas não correspondidas, o Tiago se juntando a nós no chuveiro, os sussurros de apoio por todos os lados... 

Um mundo dentro de mim, incompreendido, inexplicável, inalcançável por aqueles que assistem de fora...!


20:30, novo toque, 8cm!

Chegava a hora de entrarmos no C.O.

Lembro-me de uma enfermeira me perguntar se eu conseguia ir a pé, ou se preferia uma maca... Será que aquela pergunta era séria?! Eu não conseguia nem abrir o olho!! 


Chegando no C.O. fui direto para a banqueta de parto. A luz estava baixa, a sala estava quentinha, nossa playlist de parto estava tocando, mas eu sabia que ainda estava longe do expulsivo e da dilatação total.


Limite. A palavra com significado mais mutante que já conheci! 

O relógio na parede marcava 22h e, há três, eu afirmava, minuto após minuto, que estava no meu limite. Sendo incentivada do contrário pelo Ti e pela Fla...


Não conseguia me concentrar nos grupos musculares, apenas me contorcia em dor e pedia por analgesia, enquanto todos insistiam em afirmar que eu estava bem.

“Parem de dizer que eu estou bem! Eu não estou! Eu estou mal! 

Minha doula tentava me motivar lembrando do meu desejo por um parto natural.

“Eu queria um parto humanizado! E parto humanizado é escutar as vontades da parturiente! Isso que vocês estão fazendo comigo é tortura!” (Pensa no nível da pessoa doidona na partolândia, hahahhaa)


Dr Álvaro se dirigiu até mim e, com todo seu carinho, sensibilidade e profissionalismo, me fez repetir que eu queria analgesia. Se era o que eu realmente queria, iriam me atender! 

Me explicou que eu teria de ficar na sala sozinha com o anestesista e a enfermeira, sem ele, nem meu marido, nem minha doula, para receber a analgesia e, ao concordar, ele providenciou que o anestesista fosse chamado.


Esses foram os únicos minutos realmente difíceis... eu, meu ego (ao admitir que a dor tinha me vencido) e as mais doloridas contrações, juntos e sozinhos naquela maca, sem amparo...


Sentar de ladinho, relaxar o corpo e a cabeça depois que a contração terminasse, ou talvez depois da próxima. 

Acesso no braço, uma picadinha na coluna, um golinho de analgesia, senti uma gotinha escorrendo nas costas.... uma coceirinha pelo corpo, um pouquinho de ocitocina para me ajudar a ganhar aquele restinho de dilatação que faltava, e lá estava eu, “renascendo das cinzas”, pronta para a chegada do meu bebê!


Queria dormir uns minutinhos, mas, como o efeito analgésico era temporário, fui orientada a não desperdiçar nenhuma contração! 

Pedi para me mexer e tentar outras posições. Meu maior medo da analgesia era que ela me retirasse a liberdade de movimentação.

Dr Álvaro verificou que eu ainda tinha força para me sustentar e controle sobre as minhas pernas e, com a ajuda do Ti e da Fla, fiquei de cócoras em cima da maca. 

Primeiro puxo pós analgesia e minha bolsa estourou! 

Confesso que estávamos felizes com a possibilidade de um parto empelicado, mas, fiquei feliz demais ao constatar que, mesmo com a analgesia, eu estava fazendo força de forma correta!


Dr Álvaro deixou a gente bem à vontade na sala e, como ele nos orientou desde o início do pré natal: apenas assistia! 

Minha doula nos instruía nas posições e respirações, o Tiago me ajudava a ficar confortável e a Mel registrava tudo!


Enfim, cheguei aos 10cm! 

Porém, monitorando os batimentos do pequeno, eu estava tendo dificuldades para ajudá-lo com oxigenação!

Através daquele tubinho diretamente no meu nariz, passei a receber oxigênio. 

Ao final de cada contração, eu precisava respirar bem fundo para recuperar os batimentos do Ían e era bem cansativo! 

Assim que recuperava seus batimentos, já estava na hora de uma nova contração e de fazer força! Não sobrava tempo para relaxar!


Mais algumas forças e já era possível ver o cabeludinho que estava a caminho! 

“Eu já sei a cor do cabelo” - disse o Dr Álvaro 

“Eu também!” - Respondi - “É castanho!”

“Quem disse?” - Ele perguntou

“Você acha que se ele fosse ruivo, vocês falariam nessa naturalidade?” Hahahha


Os minutos passavam, eu empurrava e parecia que eu não conseguia uma evolução... Não tinha fôlego para puxos longos e precisava deles! 

A analgesia começava a passar... as dores lentamente começavam a voltar e eu me concentrava para que “fosse agora”! Não queria ter de repetir a analgesia...

Empurrava o mais efetivo que eu conseguia até o fim do meu fôlego e... mecônio! 


Minha primeira reação foi indagar se meu bebê seria aspirado.

O Dr Álvaro e o Dr Frauzemar (pediatra) me tranquilizavam informando que ele só seria aspirado se fosse necessário... porém , o Dr Álvaro disse que não poderíamos esperar e ele teria de intervir usando o vácuo. 

Vida em jogo, prontamente acatei! Não questionei, nem contrariei. Agradeci e agradeço os recursos que a medicina nos dá como ajuda e amparo! 

E é exatamente isso que o acompanhamento humanizado nos possibilita: confiança e segurança de sermos bem assistidos! Sabendo que nada, além do necessário, seria feito e usado, e que, de forma alguma, estaríamos desamparados! 


O vácuo foi encaixado na segunda contração após a aparição do mecônio. 

O Dr Álvaro iniciou o puxo, retirou o vácuo e, na mesma contração, às 22:44, embalado pela voz de Michael Jackson em “Will you be there?” (música  que me arrepia e arrepiará para o resto da vida), ele nasceu! 

Tiago amparou sua cabecinha durante a rotação e seu corpinho, inundaaaado de mecônio, durante a saída!


“Segura teu filho!” - orientava o Dr Álvaro


Estiquei meus braços e segurei MEU FILHO, me olhando nos olhos. Imprinting. Enfim, eu sabia o que era aquilo. Enfim, o sentimento mais inexplicável, a força sem medidas, o amor mais profundo... se revelavam.


A dor foi embora, o tempo parou!

Senti seu corpinho molinho, quente, e a textura escorregadia nas minhas mãos! 

“Meu Deus, como você é enorme, filho”

“Como você é maravilhoso!”

“Eu sou mãe!”


Seu pai ordenhou e cortou seu cordão umbilical após parar de pulsar e aquela ligação física, essencial para nos unir, não era mais necessária. 

Agora, ele estava aqui... do lado de fora, porém, mais dentro e profundo do que nunca.


Após nosso primeiro contato pele a pele, ele foi com o Tiago ser pesado (2.955g) e medido (48,5cm)... e não foi aspirado!
Enquanto isso, o Dr Álvaro me orientou para que eu fizesse força no momento certo para o "nascimento" da placenta.

Assim que o Tiago retornou à sala com o Ían no colo, me avisaram que ele teria de ir se aquecer um pouquinho no berçário... 

- Eu não posso ficar com ele aqui mais um pouco?
- Quanto tempo você quer? - respondeu Dr Frauzemar, pediatra que acompanhou o parto
- Quanto tempo eu posso querer?
- Você quem decide - respondeu Dr Frauzemar, que ganhou meu coração e hoje é o pediatra do Ían
- O filho é TEU! - complementou o Dr Álvaro, enquanto eu arrancava o que tinha restado da camisola lavada de mecônio para segurar MEU FILHO e curtir a nossa Golden Hour!

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Fotos: Mel Pierobom